Que fique claro: não estou tentando a abrir disputa sobre qual Rat Pack foi o mais charmoso (definitively not Sammy), o com a melhor voz (Sammy) o mais boêmio (Dean) o mais carismático (Frank), o mais carismático DE VERDADE (Sammy), o mais performático (Sammy) e o mais hediondo(Sammy).
Perdoem meus parênteses opinativos, mas é uma questão de apuração de gosto até concluírmos que Dean era o Host, Sinatra o Garçon (to deliver a song), mas Sammy era a personificação do “talento”, uma pequenina efígie mal-formada de tudo de mister que a categorização como “artista” pede.
Cantava, dançava, atuava e tocava diversos instrumentos. Por isso, mais do que 23 filmes e 40 discos Long Playing (LP), suas performances gravadas ao vivo são seu principal legado (há um aperitivo em vídeo ainda neste post). Nasceu em 1925 e morreu em 1990 vítima de um câncer de garganta brutal. Filho de dançarinos de vaudeville acabou herdando, portanto, a magnificência dos genes refinados daquela forma de arte incipiente que gerou grande parte dos ingredientes para o jazz e ainda assim continuou existindo numa realidade sui-generis. A vaudeville (voz da vila, do povo) seria muito parte do que Sammy faria de 1954 em diante.
Embates cotidianos anti-racismo
Vítima de preconceito [sic] racial quando serviu na II Grande Guerra, sublinhou um realto comovente: “Overnight the world looked different. It wasn’t one color anymore. I could see the protection I’d gotten all my life from my father and Will. I appreciated their loving hope that I’d never need to know about prejudice and hate, but they were wrong. It was as if I’d walked through a swinging door for eighteen years, a door which they had always secretly held open.”
Outro evento digno de menção foi quando, em 1959, o Rat Pack fundado com Frank Sinatra, e Dean Martin, Joey Bishop, Peter Lawford, e Shirley MacLaine e, claro, Sammy Davis Jr. Sinatra costumava chamar a trupe de “O clan” e Sammy, talvez com preciosismo semântico extremo, pediu para que não utilizassem esse sufixo por medo da associação direta com a Ku Klux Klan.
Sendo dono do espetáculo principal em alguns cassinos de Nevada (EUA), onde havia leis segregacionistas no showbiz em que negros não poderiam se apresentar nos palcos principais, somente Sammy, Nat King Cole e Count Basie puderam “desfrutar” (e dá-lhe aspas) dessa prerrogativa;
ainda assim, NÃO podiam se alojar no hotel/cassino e muito menos jogar.
Eyeballs off the face.
Perdeu um olho num acidente de carro em 1954 na Califórnia. Entrando para o panteão dos mutilados talentosíssimos: Django, ele próprio e Roberto Ca… hahahaha NOT!
Degustação:
Separei uns “goodies” para que apreciem.
1) Vídeo com um trecho de Sammy cantando “One for my Baby (One More for the Road)” enquanto faz imitações de Fred Astaire, Nat ‘King’ Cole, Billy Eckstine, Vaughn Monroe, Tony Bennett, Mel Tormé, Louis Armstrong, Dean Martin and Jerry Lewis.
HighLight do vídeo: ele fazendo dean martin entrando com um copo na mão, trêbado, chegando no pianista e perguntando “Wich way is the audiance, pally?”
2) Download do álbum “That Old Black Magic”
More impressive than it might look, March 15, 2003
Coming in at just over 29 minutes in length and featuring a number of hits readily available on other Sammy albums, this CD may not look like a must-have at first glance. Such looks are deceiving because this CD contains some very interesting tracks. You do get the standard versions of such great songs as That Old Black Magic (one of Sammy’s best), The Candy Man, Hey There, and Something’s Gotta Give, and The Birth of the Blues, another Sammy staple, appears here in a studio version which pales in comparison to Sammy’s fantastic live performances. That leaves five songs that require a little closer scrutiny in terms of making a buying decision. Love Me or Leave Me is a great song featuring some scorching saxophone and vintage Sammy scat work. Don’t Get Around Much Any More is a song I really like and would include on my own personal list of Sammy’s best. Begin the Beguine is as interesting as it is enjoyable. The last two songs are not your typical Sammy fare, and that makes them quite notable in my opinion. Chicago has a short and choppy presentation that has Sammy almost talking rather than singing; my description makes it sound unappealing, and I admit it does take some getting used to, but it’s really quite enjoyable. Then there is Because of You. Sammy’s amazing impersonation skills may not be known to everyone, but they are evidenced here in this song. I admit that I can’t readily identify several of the singers he imitates, but I know Nat King Cole is one of them. Because of You is really quite a beautiful song, and I would love to have heard Sammy sing it in his normal voice, but Sammy’s imitations are never to be missed. This album does provide a great introduction to Sammy’s magic, but it is also a more than worthwhile purchase for those already intimately acquainted with Sammy’s greatest hits and most memorable performances.
| 1. That Old Black Magic – Sammy Davis, Jr., Arlen, Harold |
| 2. Because of You – Sammy Davis, Jr., Hammerstein, Arthur |
| 3. Begin the Beguine – Sammy Davis, Jr., Porter, Cole |
| 4. Chicago – Sammy Davis, Jr., Fisher, Fred |
| 5. The Candy Man – Sammy Davis, Jr., Bricusse, Leslie |
| 6. Hey There – Sammy Davis, Jr., Adler, Richard [Com |
| 7. Birth of the Blues – Sammy Davis, Jr., Brown, Lew |
| 8. Something’s Gotta Give – Sammy Davis, Jr., Mercer, Johnny |
| 9. Don’t Get Around Much Anymore – Sammy Davis, Jr., Ellington, Duke |
| 10. Love Me or Leave Me – Sammy Davis, Jr., Donaldson, Walter |
DOWNLOAD LINK (MegaUpload)
——————————————————————
Sammy Davis e… OBAMA? Yes we can.
Ivan Lessa.
Em 1964, Sammy Davis Jr estrelou um musical da Broadway intitulado Golden Boy, com música e letra de Charles Strouse e Lee Adams e direção de Arthur Penn.
Ganhou o Emmy, o equivalente teatral ao Oscar, e a montagem ficou em cartaz dois anos.
Golden Boy era a adaptação de uma peça de 1939 do dramaturgo de esquerda Clifford Odets, no mesmo ano filmada com William Holden e contava a história de um jovem italiano enfrentando o dilema arte (queria ser violinista) e dinheiro (querem que seja pugilista).
Prestava-se como uma luva – de boxe – para a adaptação: um lutador negro, pronto para ser explorado por quem o cercasse, brancos e negros. Eram, afinal, os anos 60 e os direitos civis estavam na agenda. Inclusive, e muito, na agenda pessoal de Sammy Davis.
A uma certa altura, com os primeiros cobres surgindo, o personagem de Sammy, Joe Napoleon, canta a música This is the life, cercado pelo séquito habitual. Aqui um trecho:
“Can I be what I wanna be?”
E o coro:
“Yes, you can!”
“Can I get what I wanna get?”
De novo o coro
“Yes, you can!”
Sammy pergunta:
“Can I have a car with a built-in bar,
Color TV and a Playboy key,
And a hundred shares of AT&T?”
E por aí afora. O séquito sempre repetindo:
“Yes, you can, yes, you can!”
Vida riquíssima a do talentoso e versátil entertainer americano que podia e fazia de tudo. Mais do que o resto da turma do Rat Pack Sammy cansou-se de fazer a campanha de direitos civis (foi preso mais de uma vez, recebeu porrada e escarradas na cara) e, em 1960, saiu pelo país promovendo a candidatura de John Fitzgerald Kennedy para a presidência.
Eleito, JFK não o convidou para o baile inaugural. Sammy havia se casado com uma branca, ainda por cima sueca, May Britt. Negro com branca pegaria mal na Casa Branca do carismático e jovem presidente tido como liberal.
Não, o casal não podia. Não, eles não podiam.
A bofetada não foi grande novidade para Sammy. No livro, conta como, em Las Vegas, no auge de sua popularidade, entretinha nos hotéis e cassinos mais famosos, mas não podia neles se hospedar, chegar ao bar ou uma roleta. Porque era negro.
Não, ele não podia.
Nas eleições de 1968, Sammy Davis foi muito criticado por ter passado a votar pelos republicanos, ou, no caso, em Richard Nixon. Pasmo geral. Como é que pode, né mesmo? Sammy pôde. Apesar da repulsa nos meios liberais-democratas. Ele conhecera coisa bem pior.
Não foi fácil a vida de Sammy Davis. Ficaram os discos, muitos discos, filmes e filmetes e clips, ora na internet (vide, mas vide mesmo, YouTube). O homem era muito melhor do que lhe davam crédito. Inclusive como pessoa.
Sim, ele podia.
A conexão Obama
O slogan da campanha de Barack Obama é “Yes We Can”. Não foram pagos quaisquer direitos aos herdeiros de Sammy Davis. Nem passaram um, que fosse, um recibinho.
Obama pode, pode sim. Podia e foii. Basta olhar para os cortes de seus ternos e sorrisos e atentar para sua retórica. Continuam comparando-o a JFK e madame Obama a Jackie (futura O). Sammy Davis, mais uma vez, não poderá comparecer ao baile inaugural.
A ativista e sufragista americana, Victoria Claflin Woodhull, branca, foi designada pelo Equal Rights Party como candidata à presidência da república dos Estados Unidos da América do Norte em 10 de maio de 1872 e teve sua candidatura ratificada em convenção no dia 6 de junho.
Seu companheiro de chapa, candidato à Vice-Presidência da República? O abolicionista, editor, autor, estadista e reformista Frederick Douglass, um negro.
Não, eles não puderam.
Foram apenas primeirões. Feito Sammy Davis.