As Horríveis Obsessões de Robert Crumb
November 14, 2008 3 Comments
Robert Crumb é dolorosamente honesto. Foi de desenhista de cartão postal à cheff das cozinhas eróticas mais repulsivas da arte moderna humanística. O ingrediante principal dessa mudança de “emprego”? O ácido. Em suas auto-biografias cartunísticas temos cóleras de ver a auto-degradação que faz exatamente por se enquadrar no perfil dos seus leitores: fãs deslumbrados com a possibilidade de protestar contra qualquer coisa que se mover ou respirar aerobicamente. Esses fãs de modo geral não sabem que são o alvo do escárnio no final das contas. Robert Crumb nos remete à multi-arte. Um neurótico sexual, repleto de monomanias resultando em milhares de quadrinhos obscenos, mas ao mesmo tempo desafiadores à compreensão. Picaresco multi-esteta, incoerente poluidor de cenários, irrevente impressor de estilo anárquico com pincel hamatófago que chupa o vermelho da idéia e cospe-o numpreto e branco que você jura que é colorido. Crumb é alguém que bebeu de uma moringa barroca e escarrou pedaços da própria gengiva tracejando o que aparentemente era desnecessário numa gravura, retrato, cartoon e fazendo garoar esses pedaços numa profusão infinita de
detalhes. Não entendeu? Não! Bravo, cazzo! É claro que não era pra entender. E se você interiorizou um “sim, saquei, bicho”, então você está chapado e dando crédito demais às borrifadas aleatórias de conceitos aliterados.
Crumb é conhecido por ser um artista absolutamente perturbador, de fundo cult, intelectual, prafrentex. Gera em mim a famosa frase “Se isso é contra-cultura e parece tão absurdamente cultural, com quantas patas andam aqueles a quem Crumb satiriza”? Pois bem: duas. O grande lance de ler Crumb é achar que os retratos e os tipos sociais “escarrados” são caricatos, são dignos de galhofa, são piadas estáticas, quadrúpedes, vendidos para o “Sistema” [sic], mas… aí acontece aquele momento de compreensão atordoante: quem ri das mazelas traçadas pelo autor está rindo de si próprio. Sem exceção. Veja os principais personagens que Crumb já criou:

Ele mesmo é personagem. Criador de todos os outros, matriz da sacanagem, da aniquilação do provincianismo burguês e ao mesmo tempo do “bicho-grilismo” dos que só queriam protestar mesmo sem saber contra o que. Crumb criou e chocou milhões de leitores, tanto fãs como incautos que se depararam com suas atrocidades gráficas… e brilhantismo.

Em 1965, Crumb entrou na onda do ácido e despirocou, literalmente. De consciência completamente alterada, o cidadão entrou numa sequência interminável de momentos criativos e esboços de personagens. Aí apareceu o Snoid, Flakey Foont, Eggs Ackly, Shuman the Human, and, o que vemos ao lado: Mr. Natural. Meio homem meio santo esse era o guru de todos. Doador de saberia, destruidor dos ingênuos.
Talvez o mais famoso personagem de todos foi Fritz . Crumb inspirou-se na personalidade de 2 gatos que moravam em sua casa (!!!!) Wow, para você chegar a uma conclusão sobre a idiossincrasia felina aprofundada, o ácido deveria ser de altíssima qualidade e forte poder de infiltração nas sinapses. Fritz era um boêmio com a vida sexual mais ativa do que a de Frank Sinatra, George Clooney e Rocco Sifredi juntos. Gravou-se 2 longas-metragem com Fritz. Só que crumb ficou tão puto com a popularidade do personagem que o matou em 1972 com método Leon Trotsky de furador de gelo no cérebro.
Esse é o Whiteman, apresentado ao mundo na Zap Comix #1. Esse era o sujeito que tentava manter a pose, mas tinha muita merda dentro dele e seu peito quase explodia. O sujeito foi raptado por um Yeti e levado à floresta conde começou uma coexistência harmônica com os bichos. Maníaco sexual nas horas vagas.
Esse é o Snoid, parido por Crumb no ápice do consumo de ácido. Ele é capaz de qualquer ato sexual e qualquer hora e por quanto tempo quiser. Digamos que ele é a “cartunização” de uma pessoa muito ligada ao trabalho de Crumb… ele mesmo. Ele pode aparecer no esgoto ou num leilão e, por ser diminuto, ele ataca ou as partes ginitais diretamente ou escala o torso e as pernas para executar suas infâmias. Não, você não o que num jantar de família.
Devil girl. Duas palavras: potência intimidadora. Nesta personagem é que vejo mais clara a influência de Harvey Kurtzman na vida de Robert Crumb. Não só os traços são claramente parecidos como a construção psico(i)lógica.
Caindo no conto do hilário
A história do sucesso do trabalho de Robert Crumb é muito mais engraçada do que qualquer cartoon: ele vendeu seus desenhos para um tipo de gente que quer não sabe que elas próprias são o epicentro da piada e, se soubessem, reijeitariam manter contato com o material. Então são três tipos sociais: os 80% que não conhecem Crumb, pois derivam de um pedaço do rocambole social menos intelectualizado, analfa-funcional, subproduto de escola pública, jovens demais para terem visto o BOOM “contraculturalesco” dos anos 60; há também os 15% que conhecem, adulam, entram em comunidades de Orkut, citam como “mais fabuloso quadrinho contestador do mundo”, mas não sacam que a história toda tem como chiste esse tipo de ação: procedimentos mesquinhos de pseudo-intelectualização proselitista (leia novamente a frase anterior) em camadas sucessivas. Eles não seriam fãs de Crumb se entendessem a piada-matriz, esse é o caso. Já os 5% restantes são simplesmente mais renascentistas do que eu e você e provavelmente devem estar num seminário sobre semiótica nos trabalhos de Crumb; coisa que eu jamais teria competência de engendrar.
É o seguinte: Robert Crumb provém de uma escola de ilustradores e cartunistas que nos anos 60 fundou o conceito de Underground comics (ou comix). Era uma espécie de imprensa-pílula de editoras independentes nos EUA, com foco em San Francisco. Artistas proeminentes associados a essa linguagem eram Vaughn Bode, Robert Crumb, Kim Deitch, Jim Franklin, David Geiser, Justin Green, Roberta Gregory, Rick Griffin, Bill Griffith, Rory Hayes e mais um punhado de nomes que se tornam irrelevantes para o fluir desse texto. Era a imprensa Não-Oficial da Contracultura que, por si só, era tão amorfa quanto oficial. Aliás o termo “contracultura” foi um sussuro neologístico acanhado que os ‘bicho-grilos” da baía de San Francisco leram nas publicações de Theodore Roszak e resolveram fazer um blues sobre aquilo dando volume ao conceito que é pobre fundamentalmente. Sempre tem um grupo social carente de embasamento teórico às suas ideologias que insufla idéias vazias. Então os bichos-grilos adotaram Crumb e sua vasta coleção de personagens excêntricos e o tornaram POP. Rigorosamente um mito.
As ilustrações mais famosas de Crumb são:
• a capa do álbum do Big Brother and Holding Company (primeira banda de sucesso de Janis Joplin):
• a ilustração feita para o álbum Harmonica Blues:
• O retrato de Johnny Dodds
• Anatomia segundo Robert Crumb •
Mulher Melancia é materialização dele.
As mulheres retratadas por Robert Crumb são muito parecidas com essa tendê
ncia nacional de apreciação de monumentos à unção divina de músculo e gordura. A anatomia da opulência é marca crassa nos registros. Mulheres de coxas grossas, feições claramente masculinizadas (há controvérsias), músculos e roupa coladíssima. O detalhe é que são tantos “datalhes” no desenho que invariavemente podemos confundir rabiscos que eram pra determinar sombra com pêlos.
O que nos leva a considerar não só uma lembraça dos modelos mais incipientes de Tarsila do Amaral e o Abaporu. Pés e bundas enormes e cabeças atrofiadas significam claramente um menor trabalho mental e um gigantesco trabalho físico… glúteo. É o conceito reloaded de antropofagia inconsciente. É o que já havia citado… as mulheres da contracultura, todas sedentas por igualdade sexual conseguiam adorar uma gravura feito essa e ainda pedir espaço para eco da própria voz.
Outra temática recorrente, além na nádega, é a inclusão de uma rua com ponto de convergência no infinito. Vimos ali em cima na ilusração sobre Harmonica e Blues quase o mesmo ângulo de visão de quem aprecia a bunduda aqui ao lado. Há esse caráter de “never ending” prelado ao conceito de .. ah, vou traduzir exatamente o que está escrito no cartoon: “Ei seus burguêses
degenerados! Vamos lá! Todos vocês mimadinhos reclamões manhosos da classe média afluente. Pulem aqui atrás! Deixem que a Santa Bunduda te leve de volta pra casa!”.
Então, adiante; Robert Crumb traçou o perfil da classe média intelectual e sexual e sarreou-a à exaustão. E sabe QUEM consome Crumb e estampa no peito uma pretensa sabedoria secretamente irônica por conhecer um artista underground e também jazzista? Já falei: EU! Você. Putz grila! Para mim, ler Crumb, é pegar o “glossário” de anedotas aos contra-culturóides e rir deles, não dar recreio ao americano médio e defecar na samba-canção só porque pude comparar Dean Martin a Fritz The Cat ou as bundudas ao Abaporu.
E como não poderia faltar no Benzedrina…
Envolveu-se com o jazz num quarteto de cordas magnífico desempenhando desde manouches francesas ao ragtime do final do século 17.
Frontman da banda nos anos 70 e, evidentemente, elaborador das capas e cartazes, hoje em dia afastou-se em definitivo, mas disponibilizo para vocês um dos discos mais deliciosos da trupe;
Hoje a banda é fomada por Bob Armstrong (vocals, saw, guitar), Bob Brozman (vocals, various steel instruments, guitar, ukulele), Al Dodge (vocals, mandolin), Terry Zwigoff (saw, cello, Stroh fiddle, and mandolin), and Tony Marcus (vocals guitar and fiddle). “As a novelty, they issued a number of recordings on 78rpm discs in the 1970s, long after the format was obsolete. Their three (33⅓ rpm) albums, all recorded in the 1970s on the Blue Goose label, were titled R. Crumb and his Cheap Suit Serenaders, R. Crumb and his Cheap Suit Serenaders No. 2 (1976), and R. Crumb and his Cheap Suit Serenaders No. 3 (1978); the latter two have been reissued on the Shanachie label as Chasin’ Rainbows (No. 2) and Singing In the Bathtub (No. 3).”









